Lectio Divina (Eclo 39, 22-25): Escolhe, pois, o bem.


Hoje a lectio vem nos falar sobre o poder de Deus e o nosso proceder perante Sua graça.

A bênção de Deus transborda como um rio numa enchente, regando toda a terra e tornando-a boa para o plantio. A comparação da planta regada pelo rio pode ser vista também no Salmos 1, 3. A benção de Deus irriga a terra, mas a terra precisa ser boa, para receber a água vivificante que transborda. Precisamos preparar nosso coração, nos abrir a essa água viva.

O versículo vinte e três fala que desta maneira, com a benção derramada, as nações experimentarão a ira de Deus. E o que seria a ira de Deus? O autor usa uma comparação: tal qual transformou as águas em deserto salgado. Podemos ver aqui o contraste do deserto, onde nada cresce, e a margem de um rio, onde tudo pode crescer. Deus tem o poder de dar e de tirar. Ele pode todas as coisas e essa ira se trata justamente disso. O autor sagrado usou esta palavra no sentido de violência. Uma tempestade ou mesmo um terremoto é uma violência da natureza, que por si só não é má, e pode ceifar vidas. Seria Deus mal? Claro que não. A grande questão aqui é o tempo certo de todas as coisas acontecerem. Uma pessoa pode ter um câncer, mas esse câncer ser uma via de salvação para a vida dela. Outra pode morrer em um acidente, mas ela poderia estar sendo livrada de algo muito pior: a morte eterna, ficar longe de Deus para sempre. Não há maneira alguma de entender plenamente os desígnios de Deus e estes exemplos que cito são apenas para ilustrar. Deus é Deus e nós, como diz a música, somos apenas os adoradores.

O caminho de Deus é reto e deleitoso para quem é justo, mas para o injusto é um caminho árduo, cheio de obstáculos. De fato, quem ama verdadeiramente, quem vive o amor real, não sente pesar ao cuidar de quem se ama, muito pelo contrário, sente um prazer imensurável. Para quem não ama, fazer algo pelo outro torna-se um sacrifício. O próprio Cristo nos diz que não quer sacrifício, mas sim a misericórdia. E esta prefigura um amor real, concreto, onde se ama pelo que se é, não pelo que se tem.

O próximo versículo corrobora com o anterior, mostrando que as coisas boas foram criadas para os bons e os males, para os pecadores. Aqui podemos ver que pecador não é somente o que peca, pois se assim o fosse, todos nós estaríamos fritos, só teríamos males. Aqui o autor sagrado fala do pecador assumido, que peca porque quer pecar, porque escolheu um caminho de iniquidade. A este tudo o que lhe resta são males, trevas. Já ouvi uma pessoa dizer que houve pessoas más que morreram de maneira muito tranquila, sem receber males. Ele citou Mussolini, mas ao pesquisar sobre a vida dele, vi que o mesmo não teve uma morte muito agradável não. Pelo contrário, foi assassinado junto com sua esposa. É impossível uma pessoa que escolheu o caminho largo não sofrer as consequências dos males que escolheu na vida. É uma lei da física que se aplica no âmbito humano e espiritual: a lei da ação e reação. Tudo o que fazemos na vida terá uma reação, seja ela exterior, seja interior. Tal reação pode se aplicar a nós e a todas as pessoas ligadas a nós. Por isso a importância de escolher a melhor parte, como Maria o escolheu em contraste com Marta (c.f. Lucas 10, 38-42).

É escolhendo o caminho de Deus que nosso coração cada dia mais preparado estará para receber suas graças e coisas boas. Peçamos a Deus a graça de perseverarmos nesse caminho e, se não o vivemos, peçamos a graça de viver. Louvado seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre seja louvado.
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