Lectio Divina (Eclo 27,30-28,7): Perdoar e não guardar rancor


O tema principal da nossa lectio de hoje é o perdão. Temos guardado rancor ou perdoado os que nos machucaram?

O primeiro versículo da lectio, que é o último do capítulo 27, nos afirma que rancor e cólera são abomináveis e o pecador as conserva. De fato, Jesus nos diz que quem se irar contra seu irmão, é condenável tanto quanto o pecado de matar, pois estará matando a imagem de seu irmão dentro de si (c.f. Mateus 5,21s). Penso que isso poderá ocasionar pecados piores.

O Senhor pedirá contas dos pecados daqueles que usam de vingança. A vingança não passa de um disfarce para esconder a frustração, o medo e o ódio. Pessoas que se vingam geralmente são pessoas frustradas na vida, que querem sempre estar por cima e quando alguém faz algo bacana que chama a atenção, tirando a atenção de si, faz a vingança da fofoca, inventando calúnias daqueles que fazem o bem.

Outro tipo de vingança é a cometida contra uma pessoa que errou conosco. A pessoa erra porque é humana e nem sempre ela sabe que uma determinada atitude não faz bem para você. O vingativo, em vez de sentar e conversar, apontando o que não gostou, se vinga fazendo duas vezes pior, como se o outro fosse aprender na vingança a não errar mais com você. A vingança não ensina, só afasta e destrói amizades e relacionamentos. O diálogo constrói, eleva pontes de ligação e faz crescer um relacionamento, seja familiar, amizade ou mesmo de casal.

Quando perdoamos, Deus também não demorará em nos perdoar de nossas faltas. De fato, como alguém quer exigir misericórdia do Senhor se ele mesmo não pratica a misericórdia? Jesus nos diz isso também através de uma parábola. Nos diz que não faz sentido pedir perdão a Deus sem perdoar nossos irmãos (c.f. Mateus 18,23-35).

Ninguém pode pedir cura a Deus se guarda rancor em seu coração, nos diz o autor sagrado. De fato, o rancor é como um câncer que dilacera a alma. Se nosso espírito não vai bem, isso se reflete também em nosso corpo, causando dores. São as chamadas doenças psicossomáticas. A pessoa está saudável, todos os exames mostram que a pessoa não tem nada, mas mesmo assim ela sente dores, que são reflexos do mal que ela está carregando dentro de si mesma.

Quando paramos para pensar melhor, é até irracional pedir perdão a Deus sem perdoar nosso irmão. Ninguém pode pedir de ninguém, nem mesmo do Senhor, aquilo que ela mesma não pratica. Isso, meus amigos, se chama hipocrisia. Agir dessa maneira é ser hipócrita. É como os fariseus, escribas e mestres da lei agiam no tempo de Jesus. Colocavam cargas pesadas em cima do povo, enquanto eles mesmo ficavam livres, comendo e bebendo, tendo uma vida boa (c.f. Mateus 23).

Como nós, tão limitados, que somos apenas carne, queremos perdão se guardamos rancor? Por isso, deixemos florescer em nosso coração apenas o bem, apenas aquilo que cresce diante do Pai. Deixemos crescer o amor, a misericórdia.

Odiar é tão inútil quanto atravessar uma avenida movimentada sem olhar se vem carros. O ser humano tem um fim. Nunca se soube de ninguém que seja imortal. Nas épocas atuais, no máximo que já se ouviu falar foi que alguém alcançou seus 122 anos. Além disso, ninguém sabe quando será o seu fim. Então, porque perder tempo odiando alguém? Será que valeria a pena levar ódio para o túmulo? Por isso precisamos perdoar e perseverar nos mandamentos de Deus.

O autor sagrado termina nos dando o conselho de se lembrar dos mandamentos e vivermos, sem guardar rancor. De fato, precisamos estar atentos à palavra de Deus, guardá-la no coração para que nossa prática seja segundo ela nos ensina. Peçamos a Deus essa graça da conversão interior, para que vivamos segundo Sua vontade e pratiquemos o perdão. Louvado seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre seja louvado.
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